Fonte: LinkedIn – Por: Alvaro Machado Dias (Neurocientista e Futurista. Prof. Dr. Livre-docente da UNIFESP, Sócio do Instituto Locomotiva, WeMind e MetaHuman. Colunista da Folha de São Paulo. Colunista da CBN e da VoceRH).
Testes de QI são avaliações do quociente de inteligência projetados para medir a capacidade intelectual de determinada pessoa. A métrica serve para mensurar a evolução da inteligência humana ao longo das últimas décadas.
Desde sua primeira aplicação, ainda no início do século 20, é possível dizer que, sim, nos tornamos mais inteligentes à medida que o tempo passa. Isso acontece devido à melhora na alimentação, à redução de doenças infecciosas, à urbanização e também ao uso de testes inspirados no QI para diferentes propósitos, gerando aprendizado.
Essa evolução tem até nome técnico: “efeito Flynn”, em homenagem a James Flynn, cientista que mapeou o fenômeno na década de 1990.
Os anos 2020 têm sido marcados por uma série de transformações tecnológicas, sociais, econômicas e culturais. Entre as muitas novidades deste tempo está o fato de que, pela primeira vez, existem sinais de que o índice de QI da geração atual está caindo em relação à anterior.
Quem diria, os “nativos digitais”, que em tese teriam mais acesso a informação do que qualquer outra geração da história, serão os primeiros a ter quociente intelectual inferior ao de seus pais.
É uma quebra e tanto para um processo iniciado desde que os pais camponeses viram os filhos se tornarem operários e na geração seguinte já assistiam ao primeiro passo do homem na Lua.
A queda de QI dos filhos em relação aos pais é observada em países onde fatores socioeconômicos não se alteraram entre uma década e outra, como Noruega, Dinamarca, Finlândia, Holanda e França. É o que aponta o neurocientista francês Michel Desmurget, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França, e autor do livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”.
A hipótese levantada por Desmurget, e explicitada em uma entrevista recente à BBC News, é que a redução de inteligência está associada ao aumento do uso de telas.
Há estudos que apontam correlação entre exposição a videogame e televisão e diminuição do desenvolvimento cognitivo. Essa exposição, segundo o autor, afeta as bases principais da nossa inteligência, como linguagem, concentração, memória e cultura.
Desmurget aponta que os dispositivos digitais afetam as interações intrafamiliares, fundamentais para o desenvolvimento da linguagem emocional, diminuem o tempo dedicado a atividades enriquecedoras (ouvir música, por exemplo) e causam distúrbios do sono.
Tudo isso vai ao encontro do que chamo de “algoritimização do pensamento”.
Pois, entre tantos prejuízos à capacidade cognitiva na medida em que aumentamos a exposição a telas, a tendência hoje é tratar a internet como oráculo de bolso.
Acessamos o Google quando queremos saber se vai chover, quais os melhores pet shops do nosso bairro e qual remédio é bom para tosse. Mas não só. Queremos saber quais são as dez melhores frases para impressionar o futuro chefe na entrevista de emprego e quais livros devemos citar num primeiro encontro para parecer mais cultos do que de fato somos.
Mas o resultado de nossas buscas é determinado pelos vieses que imprimimos já na formulação das perguntas, fazendo com que fiquemos cada vez mais presos em nossas próprias bolhas e referências.
O psicólogo Arash Emamzadeh afirma que fazer muitas perguntas em um intervalo exíguo sinaliza preferência por respostas curtas e menos detalhadas.
Em outras palavras, o mundo que prometia se expandir à medida que o conhecimento se digitalizava nos trancafiou a um universo do tamanho de uma tela de celular. E, como um Hamlet atualizado, todos parecem se considerar um rei do espaço infinito ao assumir a reclusão em uma casca de lítio.
Tudo isso se complica num contexto em que chatbots já migraram para nossos aparelhos celulares e são usados até mesmo como nossos terapeutas eletrônicos.
Com tantas possibilidades, desaprendemos a fazer perguntas abertas, um item-chave das relações interpessoais. Elas aumentam a franqueza e retomam a ideia de que as pessoas têm lá suas divergências, mas não precisam ser excluídas do jogo por isso – diferentemente do que acontece nas bolhas digitais, onde silenciamos, bloqueamos e eliminamos quem não nos oferece um match.
Há tempos tenho defendido que a busca de respostas para perguntas abertas é um antídoto para o imediatismo digital, que nos tornou mais vulneráveis a manipulações enquanto pensamos buscar “a” verdade sobre o mundo em um só clique.
Não por acaso, os índices de depressão e ansiedade têm crescido entre as gerações mais jovens, acostumadas à rapidez e os atalhos das perguntas fechadas – um atalho que leva a muitos lugares, menos ao que chamamos de conhecimento. É mais fácil, afinal, pedir para a máquina resumir “Os Sertões” em segundos do que “perder” dias, semanas, meses lendo o clássico de Euclides da Cunha.
A ironia é que qualquer jovem médio da atualidade tem hoje quociente intelectual superior do que a média dos homens no início do último século.
Como vimos, fatores sociais e econômicos que atravessaram o século 20 ajudam a explicar o salto. E hoje, por ironia, as invenções mais contemporâneas servem como redutor do “efeito Flynn”.
Inteligência, vale lembrar, não é sinônimo de sabedoria. Da mesma forma, estupidez não é o seu oposto. Este foi o tema da minha coluna mais recente na Folha de S.Paulo.
Vivemos um mundo em que diversas gerações, herdeiras do acúmulo de informações e capacidade de processamento, convivem e disputam espaço e atenção. De modo geral,a inteligência não é exatamente um item em extinção. Mas e a sabedoria?
Uma marca de nosso tempo é que a produção intelectual anda desconectada das dinâmicas de alinhamento de incentivo. Pois conforme isso é intensificado, mais decisões estúpidas parecem produzidas em velocidade estonteante. Não é que nos faltam informações. O que falta é sentido.
Por exemplo, sabemos que dinheiro não é, ou não deveria ser, um fim em si mesmo, e sim um caminho para alcançar um objetivo maior. Ser feliz, por exemplo. Mas quanto mais buscamos dinheiro por buscar, menos felizes estamos. Não é estúpido?
Já era um desafio e tanto conter o festival de besteira que assola o país (o mundo, na verdade) em tempos de incentivos desalinhados, mesmo para quem pontuava alto QI. Tudo tende a se complicar à medida que nos tornamos mais estúpidos e menos inteligentes numa via de paralelas que se encontram na catástrofe.
Homer Simpsons que se cuide. Seus concorrentes correm o risco de engasgar tentando comer rosquinha pelo nariz.