Temos razões para temer a Superinteligência Artificial?

2023-12-14 - 1702411967093 - ChatGPT

Fonte: LinkedIn – Por Alvaro Machado Dias (Neurocientista e Futurista. Prof. Dr. Livre-docente da UNIFESP, Sócio do Instituto Locomotiva, WeMind e MetaHuman. Associate Partner MIT Tech Review. Colunista da Folha de São Paulo, Rádio CBN, VoceRH e MIT Tech Review) | Foto: Getty Images

Algoritmização relacional, reavaliação de paradigmas educacionais, redefinições produtivas.

São muitas as razões que nos levam a concluir que nenhuma tecnologia do pós-guerra impactou tanto a sociedade quanto o ChatGPT, plataforma que acaba de completar um ano de vida. Sim, estamos falando de um “bebê” que nos últimos 12 meses ganhou tal dimensão e musculatura que já transformou o espírito do tempo.

Essas redefinições do zeitgeist prometem eliminar tarefas pouco inspiradoras e multiplicar as taxas de desemprego pelo mundo.

E não é só. Erra quem pensa que a saída (e posterior recontratação) de Sam Altman da OpenAI tenha a ver com ego ou disputas comezinhas na companhia detentora do ChatGPT.

Ronaldo Lemos, em uma coluna recente, descreveu o impasse entre o nome mais aclamado hoje do Vale do Silício e os acionistas da OpenAI. Ao que se sabe, ele queria implementar produtos novos sem olhar para as consequências – um problema e tanto em uma entidade sem fins lucrativos como a OpenAI.

É difícil não fazer paralelos com o Projeto Manhattan, recentemente retratado no filme “Oppenheimer”, de Christopher Nolan.

Veículos como Reuters e The Information atestam que a briga está relacionada a um algoritmo chamado Q*, que daria ao ChatGPT poderes de raciocinar matematicamente, planejar suas produções e treinar a si mesmo.

Sim: a criatura, ao que parece, já não quer obedecer apenas aos comandos do criador. Quer ganhar vida própria. Mary Shelley, sobre quem falamos recentemente, assinaria a obra.

Hoje o que podemos dizer é que, se em um ano o ChatGPT já produziu tantas mudanças, em um futuro próximo, mas próximo mesmo, poderemos assistir filmes com qualidade de cinema a partir de instruções textuais, os chamados “prompts”, que podem dominar uma indústria que movimenta US$ 100 bilhões ao ano. Dá para entender a gritaria de roteiristas e atores de Hollywood diante dessa possibilidade.

É um caminho sem volta? Sabemos que ao longo da História a expansão da sistematicidade caminha ao lado da ampliação da criatividade. Assim como no cinema, as novas ferramentas de IA serão capazes de processar todo tipo de estímulo, competindo cabeça a cabeça com os maiores talentos (humanos, bom frisar) de cada área do conhecimento.

Essas novas versões da IA são conhecidas como inteligências artificiais gerais (AGIs) e são a antessala das tão temidas Superinteligências (ou ASI), que não só competirão como superarão os maiores experts em todas as tarefas hoje monopolizadas por mãos e ordens humanas. Falei sobre elas em minha coluna mais recente na Folha de S.Paulo.

Se pudesse apostar, diria que essa AGI não é miragem nem papo de ficção científica. Ela é a maior ameaça à ideia de que nós, humanos, podemos ser superados em algumas tarefas, mas jamais nos campos teóricos e da criatividade artística. Esse monopólio pode estar por um fio.

Pela velocidade dos avanços, sabemos que esse salto tecnológico será atingido logo.

Mas na prática tudo vai depender dos mecanismos de regulação. A bomba de hidrogênio assombra o Planeta há oito décadas. Mas não é vendida no supermercado do bairro. O dono da venda não daria tamanho tiro no próprio pé.

A compreensão sobre os riscos da invenção superou em algum momento a curiosidade de vê-la ganhar vida própria – condenando à morte seus inventores e quem não tinha nada com isso.

Preocupado com a escalada armamentista mundial, Robert Oppenheimer se arrependeu de ajudar na criação da bomba e se tornou um defensor do controle internacional de armas militares.

Sam Altman talvez um dia reflita também sobre o avanço inconsequente (segundo seus detratores) de uma arma que também promete implodir o mundo como conhecemos – se para o bem ou para o mal, ainda não chegamos ao fim da história para descobrir.

Saberemos o que ele pensará sobre tudo em uma futura cinebiografia. Provavelmente ela será produzida e dirigida por IA, e não por Christopher Nolan – que certamente estará desempregado na era da Superinteligência.

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