Por que estudar filosofia pode ser um diferencial para os engenheiros da computação em tempos de IA

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Para Marco Argenti, Chief Information Officer do Goldman Sachs, o diferencial do engenheiro que entende de filosofia seria um domínio de raciocínio, lógica e pensamento para realizar perguntas cada vez mais assertivas e, assim, tirar o máximo proveito da IA

Fonte: Época Negócios – Por Soraia Alves | Foto: Getty Images

A conexão entre a programação de códigos e a filosofia pode não ser tão óbvia, mas para Marco Argenti, Chief Information Officer do Goldman Sachs, esta é uma combinação que fará toda a diferença para os engenheiros do futuro.

“Recentemente, disse à minha filha, que é estudante universitária: se você deseja seguir uma carreira em engenharia, deve se concentrar no aprendizado da filosofia, além dos cursos tradicionais de engenharia. Isso irá melhorar os códigos que você vai criar um dia”, escreveu o executivo, em artigo publicado no Harvard Business Review.

Segundo ele, na era da inteligência artificial, os profissionais que tiverem a “capacidade de compreender o porquê antes de começarem a trabalhar no como” conseguirão criar códigos melhores, sem problemas de funcionalidade.

“A codificação é uma das coisas que a IA faz muito bem, e suas capacidades estão melhorando rapidamente. No entanto, há um problema: o código criado por uma IA pode ser sintaticamente e semanticamente correto, mas não funcionalmente correto. Em outras palavras, pode funcionar bem, mas não fazer exatamente o que o usuário deseja. Assim, ter um modelo mental nítido em torno de um problema e ser capaz de dividi-lo em etapas tratáveis, por exemplo, são as habilidades que farão a diferença para um grande engenheiro no futuro”, conclui Argenti — que também é engenheiro.

A ideia do executivo do Goldman Sachs não é algo isolado. Entusiasta da ligação entre filosofia e tecnologia, o filósofo Carl Mitcham também já escreveu sobre como essa ciência humana pode ser um diferencial para os engenheiros.

“A filosofia é importante para a engenharia por, pelo menos, três razões. Em primeiro lugar, a filosofia é necessária para que os engenheiros possam compreender e defender as críticas filosóficas. Em segundo lugar, a filosofia, especialmente a ética, é necessária para ajudar os engenheiros a lidar com problemas éticos profissionais. E em terceiro lugar, dado o caráter inerentemente filosófico da engenharia, a filosofia pode funcionar efetivamente como um meio para gerar uma maior autocompreensão da própria propriedade”.

Perguntas exatas = melhores prompts

Argenti defende que a engenharia de prompts é “mais uma arte do que uma ciência”. Os profissionais aprendem como criar prompts que sejam compactos, expressivos e eficazes para fazer com que a IA realize as tarefas desejadas. Existem várias técnicas para isso, e que funcionam como uma espécie de guia para a IA seguir o caminho certo de programação.

“Em geral, as técnicas seguem um esquema com perguntas e respostas. Por exemplo, para análise de sentimento usando prompts em poucas tentativas, um usuário pode inserir um prompt como ‘Analisar o sentimento das sentenças em uma teleconferência de resultados’ seguido de exemplos específicos, como ‘Perspectiva melhorada: Positiva’ ou ‘Demanda lenta: Negativa’. Isso ajuda a IA a compreender o padrão e o contexto para gerar análises de sentimento precisas com base nos exemplos oferecidos”, explica.

Perguntas ambíguas ou mal formuladas fazem com que a IA tente adivinhar o que realmente o programador está tentando fazer, o que, consequentemente, aumenta a probabilidade de obter uma resposta imprecisa ou até mesmo totalmente inventada. Neste contexto, o diferencial do engenheiro que entende de filosofia seria um domínio de raciocínio, lógica e pensamento para realizar perguntas cada vez mais assertivas e, assim, tirar o máximo proveito da IA.

“Uma das habilidades mais importantes que aprendi em décadas gerenciando equipes de engenharia é fazer as perguntas certas. E isso não é diferente na era da IA: a qualidade da saída de um modelo de linguagem grande (LLM) é muito sensível à qualidade do prompt”, diz o executivo.

“A pergunta ‘Você sabe codificar?’ se tornará ‘Você consegue obter o melhor código de sua IA fazendo a pergunta certa?’, aposta ele.

Diferencial homem x máquina

Para Argenti, a filosofia também tem outra importância dentro da engenharia do futuro: ser um diferencial entre homem e máquina. Segundo o executivo, à medida que o conhecimento fica mais fácil de obter – inclusive por conta da IA -, o raciocínio humano se torna cada vez mais importante.

“O uso dessas habilidades de pensamento filosófico não termina quando você obtém o resultado que acha que estava procurando – o trabalho ainda não está concluído. Como sabemos, as IAs podem cometer erros e são particularmente boas em fazer com que resultados incorretos pareçam plausíveis, tornando a capacidade de discernir a verdade outra habilidade extremamente importante”, analisa. “O que volta ao meu ponto original: ter um modelo mental nítido em torno de um problema, ser capaz de dividi-lo em etapas, e até mesmo estar preparado para debater uma IA teimosa são habilidades que farão um grande engenheiro no futuro”.

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