Fonte. LinkedIn – Por Pedro Dias Venâncio (Docente, Investigador e Autor Jurídico) | Imagem. Desenho de Pedro Dias
Coincidiu recentemente ter lido aqui no LinkedIn (1) e em uma notícia da Forbes On-line (2) dois textos sobre o burnout digital.
Numa definição “emprestada” de um site do Governo brasileiro, o “Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante, que demandam muita competitividade ou responsabilidade. A principal causa da doença é justamente o excesso de trabalho.” (3)
Não é assim um fenómeno novo ou típico da sociedade da informação. É uma doença que se vem expandindo nas sociedades industrializadas ligada a situações profissionais extremamente competitivas.
As notícias supracitadas levam-me a pensar que talvez a sociedade da informação esteja a elevar o burnout a um outro patamar.
A nossa vivência na sociedade da informação, permanentemente conectados a um qualquer dispositivo digital, expõe-nos a um novo nível de pressão emocional. O computador, o tablet, o smartphone, mais que dispositivos portáteis são hoje aparelhos persecutórios a que nos viciamos.
Para além de vivermos rodeados de aparelhos conectados, a mítica “internet of things” (4), impomo-nos um constante assédio digital, uma obsessiva necessidade de conexão digital (5).
Este estado de permanente conexão digital impede-nos de “desligar” da tensão laboral, continuando fora do horário de trabalho a ser bombardeados com mensagens que nos reconduzem ao stress laboral.
Mas também nos impede de desligar dos problemas familiares, da escola ou dos amigos, quando estamos no trabalho.
É como se a sociedade da informação nos desse um perigoso dom de ubiquidade, permanente e simultaneamente expostos a todas as tensões (profissionais, familiares, etc.).
Acresce que o próprio impulso de conexão digital está não raras vezes ligado a sentimentos de ansiedade e/ou competição que nos mantêm em tensão. Ansiedade pela atualização dos feeds das redes sociais, das mensagens, das notícias, num insaciável desejo de novidade. Mas também em permanente competição pelo número de “amigos”, de “seguidores”, ou de “gostos” (likes).
Ter o telemóvel ligado à rede, permanentemente à mão, desde que o despertador toca, no pequeno-almoço, no transporte, no trabalho, no almoço, no café, no jantar, à mesa, no sofá ou na cama, até ao segundo em que adormecemos, roubou-nos o silêncio. O espaço de vazio em que nos reencontramos. Aquele momento em que a sós percebemos que existimos para lá dos outros e das coisas que nos rodeiam.
A questão que coloco é se o burnout digital continua a ser uma doença ligada essencialmente a realidades profissionais extenuantes, ou se não estará a expandir-se para um fenómeno pandémico da sociedade da informação. Um risco a que nos expomos voluntária e obsessivamente em todas as esferas da nossa vida pessoal e profissional, tornando-se uma doença que já não é exclusiva dos ambientes laborais excessivos.
PDV
2023
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Notas:
(1) https://www.imagensdemarca.pt/artigo/porque-e-que-andamos-todos-queimados/
(2) Disponível em: https://www.forbes.com/sites/forbesbusinesscouncil/2023/06/28/how-leaders-can-help-employees-unplug-and-combat-digital-burnout/?sh=71b55324b089
(3) In https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/sindrome-de-burnout.
(4) https://en.wikipedia.org/wiki/Internet_of_things
(5) a que já me referi no artigo “Tempo de conexão digital” in https://www.linkedin.com/pulse/tempo-de-conex%C3%A3o-digital-pedro-dias-ven%C3%A2ncio