Fonte: Newletter Semanal de “Fora do Comum” – Por Alvaro Machado Dias (Via LinkedIn) | Imagem: Divulgação
Toda criança é uma pequena cientista em potencial.
O mundo é seu laboratório e a fase dos “por quês”, o seu primeiro método de investigação.
Nessa fase, que se inicia dos três aos cinco anos, os adultos tanto podem expandir quanto limitar o universo dos campos de observação infanto-juvenil. A resposta a uma pergunta desafiadora pode ser um estímulo, mas também uma interdição. Então, qual a melhor maneira de estimular nas novas gerações o interesse pela ciência?
Essa pergunta foi levantada, na semana passada, para seis pessoas com filhos entre 3 e 13 anos e que já demonstram interesse pela ciência. As respostas ajudam a compreender o papel dos adultos nessa fase fundamental do desenvolvimento.
Aqui vão, então, algumas dicas:
Aproximar conhecimento da vida prática
Em comum, todos disseram que, no caso das crianças, quanto mais próximos de seu cotidiano estiverem as lições de ciência, mais chances de os pequenos desenvolverem interesse pelos temas. “Meu filho gosta de ajudar a fazer as coisas em casa. E sempre questiona, querendo entender o que acontece na cozinha quando, por exemplo, a água entra em ebulição”, conta Fernanda, jornalista e mãe do Gabriel, de 4 anos, que transformou a cozinha em seu primeiro laboratório.
A Clarice, de nove anos, também aprendeu a gostar de ciência vendo a mãe cozinhar e explicar por que na casa da praia a água ferve mais rápido do que na casa de Campos do Jordão. “Ela entende que no litoral vai ser um processo mais demorado porque estamos mais distantes da atmosfera. Outro método que funciona é fazer receita. Como se faz um bolo? Por que leva esses ingredientes? Como se forma a mistura e por que ela cresce? Por que se transformam quando esquentam?”, conta a mãe, que é editora em um portal.
Já o filho do Edson, de 9 anos, aprendeu na prática, durante uma viagem à praia, qual o caminho do sal até a nossa cozinha. “Levamos uma garrafa cheia de água do mar e deixamos fora de casa por dois dias, até evaporar. Foi assim que ele entendeu o processo”, conta o pai do Chico.
Não existe pergunta sem resposta
O Chico também aprendeu com o pai, um escritor e biógrafo, que não existe pergunta sem resposta. O método de investigação é aplicado até quando eles estão diante do guia turístico. É um princípio que os pais levam sempre para onde vão. “Entender a ciência é entender o mundo. Se você responde ‘não sei’ ou ‘isso não interessa’ a uma criança, você castra a curiosidade e ela para de perguntar, com vergonha. Muitas perguntas a gente também não sabe, mas é nosso papel procurar. Mesmo que algumas demandem tempo e pesquisa”, explica o Edson.
Linguagem adaptada
Também não existe assunto que não possa ser conversado com uma criança ou adolescente. Desde que haja transparência e aplicação do filtro etário. O filho do Edson, por exemplo, queria entender por que existem pessoas que são contra a vacinação. Em resposta, a família se reuniu para uma conversa franca e aberta. O mesmo aconteceu na casa do Ranieri, teólogo e professor da rede pública. Um dos primeiros contatos de sua filha, de 3 anos, com a ciência, foi em uma conversa sobre a importância da vacinação no período da pandemia. Este é um tema que ele trata sempre também com os alunos do ensino fundamental. “Na última aula falamos sobre as doenças que já tinham sido erradicadas, como o sarampo, e que ressurgiram depois do movimento antivacina.”
Explicar as bases teóricas da ciência de uma forma lúdica, acredita Ranieri, é uma forma de ampliar o interesse dos mais jovens. É o que ele busca fazer ao abordar temas delicados, em casa ou na sala de aula, e também quando leva a filha até o jardim botânico. Cada passeio, conta ele, é uma aula expositiva sobre a fauna e a flora brasileira.
Não há oposição entre ciência e religião
“Por muito tempo a religião tentou ser opositora da ciência”, explica Ranieri, que é de uma família cristã, já atuou como pastor e tenta sempre mostrar para a filha que não existe dicotomia entre fé e compreensão do mundo. “É bom saber que hoje existem grupos cristãos organizados em defesa da ciência, em que cientistas não fazem nenhuma negação de sua fé ao exercer o labor científico. E a gente foi aprendendo, numa perspectiva mais sóbria da relação com o divino, e não tão literalista, que muita coisa da Bíblia caminha ao lado do que a ciência foi confirmando ao longo dos anos. Para nós, cristãos, existe o milagre da ciência e a ciência do milagre.”
Quebra de estereótipos
Nem todo cientista habita num cenário como aquele de “O Mundo de Beakman”, seriado que fez sucesso com as crianças nos anos 1990. Paula, de 35 anos, é pesquisadora em História e seu filho, de 6, é vidrado em assuntos relacionados a átomos, elementos químicos e sistema solar. “Para ele foi um pouco frustrante saber que a mãe não trabalha de jaleco em um laboratório cheio de elementos químicos coloridos. Na verdade eu fico numa sala com computadores e cheia de livros”, brinca ela. Mas, mesmo que a mãe não se enquadre no estereótipo do cientista, o pequeno foi se habituando a manejar a curiosidade vendo os pais trazerem livros para casa e o levando a museus de temas diversos. “É nessa dinâmica relacional que nossos filhos e filhas serão pessoas livres para questionar e entender que o ‘não saber’ é o que nos leva a perguntar e vir a saber. Essa é a semente do que podemos fazer para ofertar esse cenário de possibilidades”, diz ela
Não brigue com a tecnologia
A economista Flávia tem uma filha de 13 anos que adora canais de Youtube. Foi em um desses programas que ela se apaixonou por Planetas. “O youtuber falava a língua dela. Foi quando percebi que o conteúdo online pode ser um aliado, sim. Ela sabia as leis da física antes de estudar na escola. E aprendeu de um jeito divertido, com contexto. Soube assim que a lei da gravidade existe e por que não saímos voando quando a Terra gira. Aconteceu o mesmo sobre as eras geológicas. Não eram temas que faziam parte do cotidiano dela. Mas a linguagem foi fundamental para que ela desenvolvesse interesse.”
Já o interesse por matemática foi despertado na escola, que incentiva os alunos a aprenderem conceitos teóricos de maneira prática – eles estudaram frações, por exemplo, fazendo pizza em sala de aula; e porcentagem numa discussão sobre compra de ingressos da banda favorita. “Sinto um esforço genuíno da escola para transformar o aprendizado em algo prazeroso e isso faz toda a diferença”.