A normalidade digital

2023-05-31 - Normalidade Digital

Fonte: Pedro Dias Venâncio – Via LinkedIn | Imagem: FreePik

Vivemos uma época onde reiteradamente nos alertam para os riscos e malefícios da excessiva exposição a ambientes digitais. Eles são evidentes a um olhar atento ao nosso redor, ou talvez nem precisemos de olhar os outros. Bastaria um espelho.

Os pescoços torcidos sobre o ecrã do smartphone, a ansiedade fóbica daqueles três minutos em que não recordamos onde pousamos o telemóvel, a tendência obsessivo-compulsiva com que a cada trinta segundos verificamos o “feed” da rede social, a tendinite no dedo indicador da excessiva repetição do movimento de “scroll” do ecrã, a ansiedade que nos causa uma mensagem de correio eletrónico por ler na caixa de “spam”.

Todos conhecemos e nos reconhecemos nestes comportamentos. São comportamentos normais no meio ambiente digital em que nos encontramos emersos.

Já ninguém se ofende com alguém que se senta connosco numa mesa de olhos postos no “smartphone”. E no final da refeição, naqueles escassos segundo em que deixamos de seguir o “feed”, pagamos a conta com o telemóvel.

Também não estranhamos aquele telemóvel em cima da mesa de uma reunião ou da sala de aulas, até porque já não se usam relógios, a não ser que sejam “smart”!

A maioria dos meus alunos assiste às aulas de computador aberto à sua frente. Nada contra. Embora eu os tente advertir que no exame vão ter de usar a legislação em papel. Penso que a maioria acredita até ao último segundo que os livros em papel também têm a função “search”.

Tudo isto é normal. É a normalidade da Sociedade da Informação.

Ora, a propósito do fim da recente pandemia, na sua característica eloquência, José Tolentino de Mendonça alerta-nos para algo que parece esquecido. Diz o poeta filósofo que “a normalidade não é um conhecido lugar a que se volta, mas uma construção a que somos chamados a empenhar-nos” (1).

Vale a pena refletir sobre estas palavras.

A normalidade é “uma construção a que somos chamados a empenhar-nos”.

Esta frase é de uma extraordinária esperança! A normalidade é uma construção nossa. Somos nós que determinamos o normal!

Esta frase também expõe porque preferimos resignarmos à uma normalidade que nos é supostamente imposta pelo meio digital. É preciso empenhar-nos para construir a nossa normalidade.

Como nos diz o dicionário “empenhar” é “esforçar-se”, “pôr empenho ou interesse”, “assumir interesses e obrigações resultantes de uma inserção em dada situação social”, “comprometer-se” (2). Construir uma normalidade melhor dá trabalho. Requer empenho!

Temos de nos convencer da necessidade de nos empenharmos em construir uma nova normalidade para a Sociedade da Informação, que não seja a mera resignação acrítica às suas múltiplas tentações.

A tecnologia, por mais aliciante que seja, não nos impõe a normalidade a que nos convertemos nas últimas décadas.

A normalidade na Sociedade da Informação não depende da tecnologia, da blockchain ou da inteligência artificial, mas do nosso empenho em construir uma comunidade digital à altura dos nossos anseios.

Nós somos chamados a construir a normalidade que queremos para o nosso ambiente digital.

Seremos capazes disso?

PDV

2023

#direitodigital #sociologiadigital #psicologiadigital #informática #ciberespaço #tolentino #normalidade

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *